Sempre o vi andando pela praça da cidade, por vezes, antes de conhecer sua história confesso que não dava nenhuma atenção e, talvez para ele fosse melhor que eu continuasse sem dar.
Thiago, um colega meu também da cidade, volta e meia narra uma nova história com Ademir. E quem é Ademir? Thiago, meu colega, explica de um jeito amoroso. "Tenho pena do Ademir e o que fazemos com ele. Um quase senhor, sempre tão sozinho pela rua, mesmo conhecendo todo mundo." Bem, talvez seja por isto a solidão, conhecer bem e suportar todo mundo.
Ademir é um homem negro com 55 anos, morador de um beirro simples de Santo Amaro da Imperatriz. Nunca casou, nunca teve filhos e mora com sua mãe, dona Rosa. Mas não é sua vida, sua triste ou feliz tragetória que conta nesta história e torna Ademir tão especial.
Seu ponto principal, motivo de toda a fama pela pequena cidade é delicado, simples e talvez, até comprado no camelô. Ademir usa um relógio de pulso!
- Ademir, que horas tem? Poxa Ademir, o que custa dizer as horas?
Ouvi hoje pela manhã sendo gritado pela rua por um molequinho que saiu a gargalhar. Em seguida me aproximo, sei que o menino se chama Alex e que repete a brincadeira toda semana.
"A parte mais engraçada é ver o jeito que ele gica bravo, fala umas coisas que ninguém entende. Resmunga tanto que todo mundo por perto ri, talvez se ele não desse bola não teria tanta graça perguntar as horas pra ele". Me disse Alex já cheio de pressa indo embora.
Tem uns dois anos que até comunidade na rede Orkut Ademir ganhou. 380 pessoas confessam em bom som: Perguntei as horas pro Ademir! A brincadeira já se tornou tradição, cultura na cidade. Jogue Santo Amaro no Wikipedia e lá estará Ademir, ande pela cidade meio dia e lá verá ele andando, veja um pequeno grupo de crianças gargalhando e lá estará provavelmente ele.
Nesse misto de sentimentos e ações, uma coisa é certa, ninguém que eu tenha conversado,
ou que você pergunte na rua, acha bacana a brincadeira feita com Ademir, é maldade, preconceito, entretanto, todos que acham isto, infelizmente, ou felizmente para nossa história, já perguntaram as horas para o Ademir. Minha amiga Ana, também moradora de Santo Amaro me disse certo dia que quando o Ademir quer ser sério, ele é. Que semanalmente encontra sua avó e ele conversando no portão sobre o que acham certo e errado na cidade, e pelo que ouve fica surpresa de, um dia ele gritar com todos no meio da rua, e no outro, falar sobre o novo desvio feito em tal rua que atrapalhará o trânsito em horário de pico.
O que talvez possa lhe dar todo sentido a esta história, e pensar que o povo daqui não é tão perseguidor sem motivos no mínimo engraçados minha avó, dona Natália, pode te explicar melhor. Dia desses ela me falou que soube numa conversa com a mãe e Ademir que hoje ele nem reclama mais em casa da brincadeira e que quando esquece o relógio volta correndo em casa para colocar.
Para nós, eu e minha avó, quem ri dessa história é ele, que usa o relógio sem saber ver as horas só pela fama.
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