terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Meu rico dinheirinho.

Hoje me senti uma fracassada.


Bem, digamos que minha vida nunca foi muito agitada, e pelo mesmo motivo nunca fui de andar muito pela rua - ok, ok sou anti-social as vezes, mas quem não é? - lembro como se fosse hoje que meu primeiro passeio de ônibus sozinha, sem meus pais ou algum responsável ao lado foi com 15 ou 16 anos, quando já namorava, e ai sim, vi um motivo concreto pra andar nesta geringonça - ok, ok também fui muito mimada, mas quem nunca foi? – e desde sempre o que mais me incomodava eram crianças na rua pedindo dinheiro para o pai ou mãe que não tinham emprego. Acho que nunca tive tanta aversão a algo mais do que ver as tais crianças, confesso que muitas das vezes (todas) 90% do motivo era/é porque sou uma baita duma mão fechada que se entrasse no mar com uma aspirina na mão sairia dele com ela intacta, sequinha. E os outros 10% eu daria para minha raiva de saber que estava sendo ruim em não bancar uma de madre Tereza de Calcutá da vida, mas era assim, mesmo tendo como único motivo minha pura casquinharia eu não conseguiria jamais dar umas moedinhas que fossem para alguém que não fosse me devolver depois.

Até que um dia meu mundo clareou – lembro até hoje do som dos sininhos da igreja a tocar e um coral de criancinhas pobres a cantar (e as que me pediam dinheiro nem estavam lá, para completar tal satisfação) – eu, já quase mocinha com meus 12 ou 13 anos vi na praça da minha cidade uma placa dizendo:

‘ Não dê dinheiro para mendigos, não financie o comodismo. ‘

Ah, me senti tão leve, tão pura. Agora eu que até então era um ser ruim das trevas tinha um motivo concreto para não doar minhas moedinhas, e o motivo estava ali, para qualquer um ver. E pela primeira vez eu me senti aliviada com meus ideais (e minha mesadinha).

Mas enfim, o foco do meu texto de hoje começa especificamente aqui. Depois do ocorrido da tal plaquinha, por anos e anos nunca mais fui parada na rua por nenhum pivete com papeizinhos ou o que seja que seu pai em casa tenha o dado. E isso me trouxe a esperança, e cegamente me fez acreditar que pelo fato de eu ter um motivo concreto de não dar mais as moedinhas, o resto da população também enxergou a bendita placa e assim como eu, ao ver uma criança guardava suas migalhas para quem sabe comprar um pão ou cafezinho mais tarde. Assim, sem as minhas moedinhas (que nunca virão nem a cor) e as de todos de minha pequena cidade, todos os pais do mundo resolveram trabalhar honestamente e como toda bela história, colocaram seus filhos - agora não mais pedintes e sem aquelas roupinhas rasgadas – na tão querida escolinha do bairro.

Mas hoje, no ponto de ônibus para vir estagiar e estudar na faculdade (as coisas mudam meu caro, hoje ando no mínimo com 4 ônibus todos os dias, estudo e trabalho – não que isso seja um orgulho para alguém - mas prova que algumas coisas mudam, menos minha aversão para dar dinheiro na rua, é claro), vejo algo que me tira o chão.

Três crianças (provavelmente irmãos) e com as tais roupas rasgadinhas e sujinhas me param e entregam um papelzinho velho rabiscado de seu pai, que com educação no bilhete me pedira dinheiro. Não pode ser, como que eles se atrevem a acabar com o meu mundo cor de rosa? Eles não deveriam estar na escola a essa hora?

Foi ai que eu, que junto com a resposta “ – Desculpe, não tenho dinheiro. “ vi que esse tempo todo em que essas crianças não me pediram grana na rua, foi questão de não esbarrar comigo, e não que neste horário estivessem estudando ou coisa do tipo. Vi que a minha desculpa esfarrapada de não ter dinheiro não enganava nem mais a mim, quem dirá enganaria aquelas crianças que me chamaram de idiota, e daquele ponto saíram de canto.

Hoje, me sinto fracassada, e sem ironias ou piadinhas bestas, assumo não saber o que fazer ao ver mas uma criança daquela, ou uma placa me pedindo para guardar meu dinheiro e seguir em frente.

2 comentários:

Pedro disse...

Muita coisa deixa em dúvida mesmo. Sei lá, acho que pelo menos se tenatarmos agir de forma que um dia o brasil seja um país decente, é boa coisa. independente do que dizem ou acham, cada um decide o que faz. Tomara que consigamos dar jeito, pois o buraco é grande.

Estás trampando ainda é, eu também. Daqui a pouco só terá nós e os quero-queros na unisul, hahha. Beijo

Thiago =) disse...

Tb não sou adepto de dar esmola, pois não passa de uma medida paliativa.
O buraco é mais embaixo, ou melhor, mais em cima.
enqto nao cobrarmos, efetivamente, dos nossos governantes um país com melhores condições, sempre haverá mendigos, sempre haverá pais usando filhos como fonte de renda :)
mas o brasileiro é tranquilo, acomodado. E a maioria prefere dar uma esmolinha, é mais fácil... ^^

;*