domingo, 26 de dezembro de 2010

A viagem


Como toda viagem, sempre esperamos algo novo, parece que as esperanças se renovam, mudamos de sorriso, de ares.

Só que esta, terrivelmente esta viagem, conseguiu destruir qualquer esperança, gosto, e sorriso que eu poderia ter, e eu ainda nem havia embarcado. Decidimos ir pra São Paulo na 29ª Bienal de Arte, eramos um grupo de 30 estudantes de comunicação de uma universidade de Florianópolis. Lembro-me bem que no mesmo dia da viagem meu querido Paul McCartney estaria no estado vizinho fazendo o show da minha vida, com o valor, claro, que não se encaixa com a minha vida. E por falta de dinheiro decidi pelo barato, melhor que isso, pelo chamado 0800, free, o 'de graça' que é sempre de bom agrado.

A viagem me animava bastante na verdade, de São Paulo eu conhecia só o interior, a capital era algo que só via na TV. E na sexta-feira pela manhã já estava com tudo arrumado. Me disseram que lá faria calor, junto da bolsa com biscoitos e guardados já separava meu
melhor vestido. Queria estar bem, bonita e renovada na tal de Sampa. A tarde no estágio passou num piscar de olhos, só pensava nos passeios, na brisa leve, e o quanto seria bom mudar de ar. Até que, ouço um raio meio tímido vindo da rua, e em seguida, assim como na TV, aquela chuva exageradamente exagerada que cai no mesmo instante. Sempre achei que esse fosse o maior defeito da insdústria de filmes, chuva mentirosa, sempre me dava vontade de desligar. Calo minha boca, maldita chuva de filme.

Em questão de minutos a estrada tinha virado lago. Nessas horas lembro do saquinho de bala que joguei no chão, maldito! Chega a hora de me encaminhar à rodoviária, e só de andar 5 metros até meu ponto já estava ensopada. Sabe quando algo te diz: "Não vá, fique ai parada!"?
Nas horas de medo sempre ligo pra minha mãe. É bobo, é ingenuo, é infantil, mas preciso dos gritos dela me mandando ser adulta para resolver as situações. E assim mamãe fez, no início sempre calma, 1 minutos depois perde a paciência com meus "O que você acha?",
"Me diz o que eu faço!", com 2 minutos ouvi o grito: "Te decide e seja adulta!" que tanto esperava e decidi. Se era ar novo que eu queria, ar melhor do que o da chuva não deve existir. Vamos lá!

Como toda comédia que a vida nos reserva, entro no ônibus e a chuva que me enxarcava lá fora cessa, de repente assim como no tal filme da TV.
Mas vamos lá, São Paulo me reserva o sol bonito, o vestido florido, vai ser legal. No meio da viagem meus sapatos já haviam secado e as calças pareciam novas. É você né Sampa? Cheio de coisas positivas pra me trazer. A viagem foi longa, jogatinas, fofocas, um pouco de cerveja, paradas caras. Acabei descobrindo que postos de parada e motoristas de ônibus são uma máfia, mas a manhã nos acorda, ou pelo menos acorda quem conseguiu dormir. 30 jovens que reclamavam de fome feito crianças sairam pelas ruas atrás de lugar pra comer, 30 jovens que se perderam centanas de vezes como crianças também, e por fim, voilá, a padaria.

O preço era mais caro que as tais postos da máfia, mas estavamos comendo, secos e felizes.. De lá até a Bienal era fácil, algumas curvas e quadras e pronto. Mas a chuva, que mais quis aparecer nessa viagem, resolveu voltar, assim como no filme, e no dia anterior.
Choveu um tanto que acredito que nem os paulistas esperavam, nem os vendedores de sombrinhas esperavam, e nem minha calça e sapatos, enfim secos, esperavam também. Mas como a vida é uma caixinha de bombons, nunca sabemos o que pode acontecer. E não é que toda essa chuva, tombos na lama, foram o que transformaram uma ida a Bienal tão especial. Talvez se não houvesse todos estes desastres do cotidiano eu não tivesse nada para relembrar neste texto, nada que me fizesse gargalhar ao digitar alguns parágrafos, e ter o que te dizer.

E a próxima história de Bienal agora? Só ano que vem, com algum tornado, talvez.

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