segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Uma breve apresentação e fim.

A história de hoje circula por diversos arredores de São Paulo. Trata-se de um dia qualquer, na vida de pessoas que até então não fazem diferença alguma em nossas vidas, e bem, quem sabe, talvez não venham a fazer no futuro também.

Dona Lurdinha é moradora do bairro Jardins desde que se casou com o Doutor Lineu, hoje já falecido. Lurdinha tinha um dia típico de uma senhora que já beirava seus 75 anos, acordara sempre às 8 da manhã para sua caminhada lenta, parando sempre no Crepe de Munic para um café da manhã com as amigas Norma e Luna. Saia de lá por volta das 10 e meia da manhã, não havia pressa nunca, sabia que nada de inovador a esperava pelo restante do dia. Em casa regava as plantas que, era uma das duas tarefas proibidas as empregadas.

- Criadas servem para lavar, ensaboar, e tirar o pó. Não é possível confiar uma refeição parisiense nas mãos de uma tal da Brasilândia e, muito menos, os cuidados de minhas plantas tão exóticas a “essazinhas” que devem achar que violeta é uma flor fina e que samambaia fique linda no canto da sala. Não não, não mesmo.

Seu dia não passava disto: caminhadas lentas, refeições em bons locais e, cuidados com as plantas.

Longe dali, do lado baixo da cidade, morava Marta. 26 anos, terminando o cursinho de enfermagem bancado à custa de um emprego em uma loja de departamentos do shopping. O dia de Marta tinha início umas 2 horas antes do de Lurdinha, 6 em ponto o relógio despertava com aquela música infernal que sempre lhe dava sustos, um dia ainda iria na loja de sua tia trocar, mas sempre esquecia. Tomava um rápido banho, um copo de leite enquanto trocava de roupa, verificava se o cartão de desconto do ônibus e o de alimentação estavam na carteira, e saia ajeitando a alça do sutiã pela rua. Marta não sabia, mas, seu Jeremias da padaria sempre esperava a moça carnuda passar e, ajeitar o sutiã que ficava atrapalhando a fogosa moça.

- Ônibus cheio, que novidade! Lá vou eu mais um dia andar toda apertada nessa bagaça cheia de homem tarado. Não que eu não goste, de vez em quando tem um gatinho, já até passei meu telefone pra um, mas, só me rendeu uma noite de forró e uns dedos pisados. Se não sabe dançar, não convida, oras!

Daquele ônibus apertado Marta ia para o shopping, seu turno era das 9 até as 5 da tarde, mas era ótimo, via gente bonita, tinha as melhores amigas do mundo e todas do mesmo departamento, o que a incomodava mesmo eram as 2 horas de ônibus entre filas e apertos.

Enquanto Lurdinha caminhava lentamente e Marta ajeitava as coisas para a loja abrir, Julinha estava em seu décimo sono. Não que dormisse demais, apenas saia do computador muito tarde e, em conseqüência, acordava tarde também, mas sabia que se precisasse acordar cedo conseguiria. Pelo menos era essa a desculpa dada aos pais todos os dias por volta do meio dia quando acordava. Julinha havia a pouco se formado no ensino médio, típica menina de cursinho pré-vestibular, acordava meio dia, hoje almoçava ovo frito escondido em casa, amanhã, comida japonesa com as amigas no shopping. Passava a tarde no cursinho, hoje anotava algumas equações e musiquinhas de regras, amanhã, ouvia o novo hit da Brit no mp7, 8, 9 que acabara de ganhar.

- Não agüento mais, é tanta pressão, pais reclamando sempre, logo de mim, que estudo tanto, que só quero trazer orgulho. Não é porque a vida deles foi difícil e todo aquele blá blá blá que a minha precisa ser igual, ué. Algumas pessoas nascem pra viver bem, eu acho!

Certo dia, o famoso dia qualquer, Lurdinha resolvera almoçar no shopping que ficava a 2 quadras de sua casa, já havia regado as plantas e, bem, sabemos todos nós que as criadas não nasceram pra uma boa culinária. O tal dia qualquer também existiu para Marta, que por trabalhar no mesmo shopping que Lurdinha morava próxima também iria por ali almoçar, afinal, o cartão de vale refeição estava cheio, e sabemos o quanto é bacana almoçar vendo gente bonita pelo shopping. Já Julinha havia decidido que hoje iria fazer a social ‘cazamiga’, nada de ovos fritos, hoje, o bendito dia qualquer, também estava a seu favor, e nada que uma caroninha de pai não resolvesse a situação do “Almoço japonês” e boas roupas.

E aqui estamos nós, o famoso dia qualquer, o dia em que zona Leste, Sul e Oeste resolveram almoçar no shopping. Ver gente bonita, fazer a social com Japanese food e, claro, comer algo digno que não seja feito por criadas da Brasilândia.

Aqui estão elas, num famoso shopping de São Paulo, sempre muito elogiado por sua limpeza e beleza interior.

Aqui estamos nós.

Eu que te fiz ler até aqui para ver um vídeo bobo de youtube, e você, que vai terminar de ler esta postagem me chamando de tudo que é coisa ruim, achando que não tenho competência para terminar uma história que até então só te serviu para sentir cansaço nas vistas.

(Se reparar bem vai encontrar minhas 3 personagens. Lá no fundo isso até que tem um sentido.)

Na verdade, só queria dizer desde o início que elas não estavam sós.

E sim, é só isso mesmo! Acabou aqui, eu tinha avisado no título que seria apenas isso, não sei por que esperou mais.

(Tudo bem, sei que você não vai voltar nunca mais. Eu também não voltaria!)

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Da simpatia para a tecnologia, o vício de Branca

Tudo começou aos 14 anos. Uma mãe fumante que não acendia o próprio cigarro e pedia para a filha mais nova por fogo em seu vício. Maria José, Branca para os mais chegados, acendia o vício da mãe no fogão de lenha que ficava escondido na cozinha de chão batido. Como benefício da ajuda, a adolescente ganhava a bituca do cigarro da mãe e ali naqueles poucos restos de tabaco se dava início a uma longa história de amor e ódio pelo vício.

Dessa história de início tímido e inocente, as coisas passaram a ficar maiores. Dois anos depois, a mãe de Branca, dona Emília, decidiu largar o cigarro. Dentro de casa cigarro não podia mais entrar. A jovem e viciada Branca teve que usar a criatividade. "Se todo mundo que fuma deixar um pouco, alguém precisa fumar o que sobrou". E foi nesse vício, misturado com a inocência de uma adolescente em seus 16 anos, que a brincadeira de caça aos toquinhos de cigarro alheio começou. Foram anos e anos andando pelas ruas e reacendendo cigarros do chão. Nesse meio tempo, Branca se casou. Olha que injustiça do destino: casou-se com um marido que cigarro não queria ver. E lá continuava Branca, um toco de lá, outro mais adiante.. Mas tudo muito bem organizado, o vício dela é regrado.

Com Branca não existem exageros. São três cigarros por dia bem divididos e disso não passa. Para largar os malditos três “cigarrinhos” muita coisa já fez. Simpatias não faltaram. Ela já jogou maço de cigarros na água e não olhou para trás, deixou cigarro dentro de um copo com água e, depois de um dia inteiro, lá se via Branca tomando a água do copo cinzento. Simpatias à parte, Branca também confia na tecnologia. Entre um copo de cerveja e outro, conta-me sobre uma encomenda que está por vir: o cigarro eletrônico. Com os mesmos sabores e saindo fumaça como qualquer outro cigarro, o eletrônico serve de substituto para quem deseja largar o vício, mas sem a nicotina e o famoso cheiro ruim. Ela diz que é a última tentativa. A esperança agora está nos Correios, que já está com a encomenda atrasada.