
Exatamente 1 hora, um pouco mais talvez em horário de pico, é o tempo que levo para sair da zona rural até a ilha, ponto final.
O sol que ainda brilhava vai sumindo, a falta dele me traz a memória que a noite é fria, mórbida. Noto pelo número de casacos que vai surgindo das bolsas, uns meio amontoados outros bem passados, alguns meio tímidos, pouco pano, afinal para que tanto?
Numa sequencia como se estivéssemos num musical as janelas vão se fechando, uma atitude até que normal, afinal o vento já seria inimigo fatal.
Ok, fatal nem tanto, afinal o moço da minha frente não participou do pequeno musical. Infeliz, que calor é esse? Não vê que de atchins já canta meu nariz?
Encolho-me feito criança com medo, dou tossidas de desespero. Mas nada serve de sinal para o fulaninho praieiro.
No segundo em que meu MP4 para noto que ali ninguém fala, é um silencio, situação enigmática. Assassinaram as gralhas? Cadê as risadas, fofocas de balada, reclamação da empregada? Nada! Conversar para que? Antes só do que mal acompanhada!
Volta música, mas noto que o vento que me incomodava para. Bondade do fulaninho é que não é, vi em seus olhos de relance o prazer que ele quer. Ó céus, é pior. A bendita fila que nessas horas de pico sempre dá. Junto dela minha raiva também vem, minha só não, as diversas cabeças curiosas subindo a olhar para frente provam que não sou a única que quer reclamar.
Ouço um “– Vai meu filho, tem medo de passar?” lá de trás. Eu que não fui, mas apoio o rapaz, motorista lento, não sabe o que faz.
Depois da curva que faz todos no banco segurar percebi que estou a rimar, acho que sou a única que não está a estudar ou roncar. Pelo menos pude todos observar, e falar, e falar, falar.
Patavinas, quando lembro de tudo isso anotar, noto que eu acabei de chegar, saco, e agora como vou lembrar? Talvez eu deva rimar, fica mais fácil de brincar, anotar, recordar, te falar.