terça-feira, 25 de agosto de 2009

O retrato das cores

- Quando tu se olhas no retrato vê o que?

- Eu? Eu vejo um turbilhão de cores, um turbilhão de jeitos, um turbilhão de vontades, o cúmulo de cima a baixo.

Um dia num dos encontros com uma senhorinha simpática, cheia de “como você se sente sobre isso?”, que me ouvia chorar e lamentar dramas exagerados (que mais pareciam pitis de velha que quer atenção), e por fim recebia seus dobrões contadinhos pelas horas de atenção dada, como se cada palavra tivesse seu valor, ouvi uma das perguntas que mais me incomodaram até os dias de hoje.

- Por que você ainda se comporta como uma criança se não é uma a uns bons anos?

O fato de nunca mais ter aparecido em seu consultório deve ter mostrado a senhorinha que eu agia assim por simplesmente ser assim. É questão de natureza, ou você é ou não é.

O dia de hoje me fez lembrar aquele de cabo a rabo, e ai junto vem toda uma teoria.

O dia de hoje começou lindo, sol quentinho, lembrei do verão (que quando acontece eu odeio, mas a saudade me faz gostar), as 9 minha mãe saiu, junto dela meu gato surge da sua caminha quente e o sol pegou carona com os dois, foi embora, até agora não o vi.

Assim como a mudança repentina do dia, eu vejo meu retrato, minha infância e velhice aos 19 anos. Olhei pra mim logo pela tarde, só, em casa como todos os dias, e ali estava a mesma Fran de 15,10,5 anos atrás. Pijama colorido, pantufas de patas de monstro, cama desfeita, meu gato ao lado como de costume, uns pedaços de papel virando moldes de desenhos animados que logo devem virar algum aplique para roupa. Vi uma Fran que sempre esteve ali, que não muda, que fica criando, criando, sonhando, que vive no seu tempo, sem pensar no certo, no correto, apenas no retrato que o tempo não muda, vive em sintonia absoluta.

O dia de hoje termina assim, sozinha, escrevendo e rindo de besteirinhas. A infância na senhorinha, os sonhos de criar, criar, brincar de falar. A alma evolui, mas fica a menina.


(Voltando a ativa depois de um longo inverno, a vida tá linda, escrevendo mais, tudo legal.

- ou não!)